Por Fernando Booyou

Sexo, drogas e maquiagens. Bingo é um divertido (e perturbador) retrato dos bastidores da TV brasileira pré mimimi.

Início dos anos 80 era uma realidade diferente dos dias de hoje. Todos fumavam seus cigarros em qualquer lugar, independente se era um ambiente fechado, avião ou até mesmo na presença de crianças. A estética sócio-cultural era mais espalhafatosa, com direito a roupas que hoje custam R$300,00 no brechó, acessórios “vintage” e cabelos que os argentinos usam nos dias atuais de um cruzamento da Tina Turner com Bon Jovi. Nas mídias, havia nenhuma restrição ou polícia do bom senso para falar que algo era politicamente correto ou não. Totalmente sem censura, bastava não extrapolar MUITO. Tinha lendas (algumas reais) de crianças morrendo engasgadas com balinha Soft (que podia ser comprada em qualquer banca, padaria, mercearia), de goma com LSD, boneco do Fofão com faca dentro. Crianças podiam comprar cerveja e cigarro que, na melhor das hipóteses, era de chocolate Pan. E, acredite ou não, todos sobreviveram. Ah! Não havia internet para estragar tudo.

Neste contexto, os programas infantis eram inconcebíveis (se fosse nos moldes de hoje. Mas como não era…). A campeã de audiência dos baixinhos? Uma ex-atriz de pornochanchada que no último filme havia feito sexo com um pré-adolescente de 12 anos. Mas não é o caminho dela que acompanhamos. Bingo é uma mistura de alguns acontecimentos da vida dos palhaços Bozo, sucesso franqueado dos EUA. Ao total, mais de 10 pessoas vestiram o manto do apresentador anônimo. Até o advento do Google, ninguém imaginava. Alguns continuaram suas carreiras artísticas, como Luís Ricardo (o simpático apresentador da Telesena) e Charles Myara (Coronel WellingtonRock Story). Mas tirando alguns acontecimentos genéricos da história do personagem, o enredo se baseia na vida de Arlindo Barreto, ator que só havia feito pornochanchadas (pré-requisito de todos atores da época) até entrar na TVS (SBT) e eventualmente, por pura brincadeira ao entrar em uma fila de teste, ser o Bozo de 1984-1986.

No filme, temos Augusto Mendes (Vladimir Brichta, inspirado em Arlindo Barreto). Um ator frustrado por não conseguir ser uma grande estrela da TV, assim como sua mãe foi um dia. E em uma tentativa de ingressar em uma novela, acaba ganhando o papel do apresentador infantil Bingo. Filmes biográficos no Brasil tendem a retratar de forma mais leve seus “biografados”. 2 Filhos de Francisco é um dos que evitaram mostrar o lado negativo das pessoas ou gerar qualquer polêmica. Aqui, essa tendência passou longe. Bingo é divertido, alegre, carismático. Mas também um drogado sem limites, que abusa do álcool, fuma no estúdio onde tem crianças e que pratica bullying com moleques abusadores. É o Palhaço Krusty da vida “real” (personagem da animação Os Simpsons que, por sinal, foi inspirado no Bozo). Então, este desconhecido ganha a notoriedade, ganha a audiência, ganha capas de revistas e até prêmios. Só não ganha o reconhecimento que tanto queria, pois a regra imprescindível para o cargo é nunca revelar sua verdadeira identidade. Isso, claro, traz seus desdobramentos. Apesar de todas baixarias com que ele se envolve (desde mulheres nuas no camarim até a Gretchen – Emanuelle Araújo – com close nas partes em um programa infantil, algo extremamente normal na época), Augusto sempre tenta paparicar a diretora Lúcia (Leandra Leal.). E enquanto ele se frustra em não poder se revelar, ele anseia que Lúcia possa mostrar sua verdadeira face.

O Rei das Manhãs também dá ao público a oportunidade de matar saudades. Durante sua trajetória para entender o ofício do palhaço (Augusto não tem a mínima noção dessa arte), ele busca ajuda de profissionais. O auxílio vem do palhaço de circo Aparício, saudoso Domingos Montagner, falecido em 2016 e que, antes de novelas, realmente exercia essa função. Augusto então finalmente está pronto após um estágio intensivo com este “mestre”. Intensivo também foi a montagem do filme. Não há uma preocupação em passar para o público a noção de tempo decorrido. O que conduziria o espectador em compreender melhor a relação gradativa de negligência de Augusto com sua vida pessoal, além de seu aprofundamento nos vícios. A trilha sonora, tanto a original quanto as músicas de época, é excepcional, apesar de ter timbres mais característicos de meados dos anos 80, enquanto a obra retrata o início desta década. Meros detalhes que não desmerecem em nada a obra em si. Uma boa estreia na direção para Daniel Rezende, que antes foi editor de filmes como Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e Cidade de Deus, sendo essa sua primeira indicação ao Oscar.

Bingo tem todos requisitos para ser o filme nacional de maior arrecadação do ano. Elenco bem dirigido, história bem contada, humor bem pontuado. O encerramento merecia ser melhor elaborado, uma vez que o foco foi apenas a trajetória de ascensão e queda, sem muito espaço para o momento esperado em que o personagem reergue, sendo reduzido aos típicos créditos finais que narram por caracteres o que aconteceu em seguida. O que dá uma sensação de arco inacabado. Todavia, isso também impede de cair em formatos padrões, o que tornaria tudo mais previsível. A nostalgia dá um valor extra, que faz todos que vivenciaram essa época lembrar de como era divertido o Rei das Manhãs e também de algumas tardes. As únicas más lembranças recorrentes são a frustração de nunca conseguir falar ao vivo pelo telefone e o “merchan” dos picolés Yopa que eram impossíveis de encontrar fora de São Paulo.

Nota: 8/10

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