Por Fernando Booyou

Para compreender o presente, uma breve visita ao passado. O ano era 1996. Até então, referência na cultura Pop de filme impactante era algo próximo de Pulp Fiction ou talvez Seven. Neste ano, debutava Trainspotting. O filme esfregava na cara do espectador, com uma naturalidade desconcertante, a realidade de um grupo de amigos sem perspectiva de futuro a longo prazo, envolvidos em crimes e golpes para manter seus vícios. Mostrando usuários de drogas em plena atividade, sem nenhuma censura ou sutileza. E as conseqüências do uso com um peso que só seria visto novamente nos anos 2000 com Réquiem Para um Sonho. A estética quebrava os formatos padrões da época. Para começar, fugia do otimismo esperado, entregando uma visão torta e, ao mesmo tempo, estranhamente divertida. Tudo com uma linguagem mais dinâmica, suja, com enquadramentos inusitados, soluções incomuns e inovadoras, como um bebê fantasma andando no teto ou ver uma pessoa literalmente entrando em uma privada ou ainda se afundando no chão enquanto tem uma overdose. Os diálogos e monólogos cotidianos falados com uma espontaneidade tipicamente “tarantinesca”, que aparentemente são sobre o nada, mas que evidenciam o caráter e forma de pensar e agir de cada personagem. E a trilha que até hoje agrada ouvidos e que dava o ar anarcopunk, subversivo, classe média, eclético com espaço até para o eurodance.

Agora imagine você, nos dias de hoje, em um destes encontros de amigos de escola que não tinham mais contato desde a formatura de anos atrás. Este mesmo clima é o que se propõe Trainspotting 2, uma sessão nostalgia com amigos que não se encontravam há duas décadas. Dentro e fora do filme, o que liga as duas obras é a lembrança dos “bons tempos”. Sendo este o ponto positivo e negativo de T2, porque ao mesmo tempo que é uma homenagem mais madura, também traz a comodidade da experiência. Mark Renton (Ewan McGregor), que agora tem uma vida mais regrada e saudável, passa por uma experiência de quase morte, o que faz ele reavaliar a vida. A partir disso, temos a razão da volta dele para Edimburgo/Escócia, 20 anos depois de ter dado o golpe em seus amigos e sócios de crime: Sick Boy (Jonny Lee Miller), que continua aplicando golpes; Spud (Ewen Bremner), que continua desempregado e perdido; E Begbie (Robert Carlyle), que continua o mesmo cretino de sempre. Cada um seguindo com seus vícios, seja a cocaína, seja a heroína, seja a vida do crime, seja seguir o mesmo ciclo narrativo.

Com o passar dos anos, os atores evoluíram, personagens também. O que permite uma entrega maior em cena. A acidez e o bom humor, mesmo em um contexto pesado, continuam presentes e melhor explorados. A continuação consegue ser mais divertida em alguns pontos. Com direito até a momento musical de humor negro, com tema que enaltece a morte de cristãos em uma batalha histórica da região. “No more catholics left” (restava mais nenhum católico). O diretor Danny Boyle também se mostra mais maduro, mais seguro e com domínio de seu trabalho. Ele conduz como se fosse um passeio por caminhos que ele já conhece. Mas essa maturidade trouxe junto a zona de conforto.

Como o próprio filme diz, “primeiro há a oportunidade. Depois a traição”. T2 é basicamente uma releitura da estrutura de seu precursor. O ponto positivo é uma continuação honesta, bem executada e que não foi uma resposta imediata ao sucesso do primeiro, respeitando, até certo ponto, o tempo transcorrido nas obras de Irvine Welch que deram origem aos filmes. Mas com isso, vem também a repetição sem medo da mesma fórmula que deu certo. Mesma visão pessimista, mesmos recursos, mesmo estilo de trilha, os mesmos desdobramentos. Com direito até a referências diretas de cenas do passado e repetição de textos. Ou seja, obrigatório ter visto o anterior para entender com plenitude a sequência. Tudo adaptado aos tempos modernos. Vemos até o famoso monólogo “Escolha a vida”, moldado para a era dos smartphones e redes sociais, mas apresentado de forma menos dinâmica e mais monótona. Até a premissa e ordem de acontecimentos seguem os mesmos padrões. Em determinados momentos é possível até prever eventos futuros dentro do enredo. O resultado é um material sem riscos, sem as quebras, sem as inovações, sem tudo que fazia o original ser tão único. Trainspotting 2 é uma excelente homenagem ao antecessor, mas sem toda a carga de novidade que marcou uma geração. Fazendo um paralelo do tema com o espectador, é como experimentar uma droga, sabendo que a segunda dose nunca vai ser igual a primeira.

Nota: 7/10

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1 comentário »

  1. Putz, não há como ler essa crítica e não sentir vontade de ver o filme.
    Em alguns momentos, enxergo o filme e várias passagens, de tão claro e perfeito que é o texto.

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