Por Fernando Booyou

Quando o mundo viu pela primeira vez um breve vislumbre da criatura criada pelo surrealista (entenda como “doente”) H. R. Giger, já se sabia que nada mais seria como antes. Breve vislumbre porque aquele ser nunca aparecia por completo, nunca exposto a luz. Mas o pouco que se olhava era o suficiente para deixar a calça quente e as pernas travadas sem conseguir se mexer. Era certeza que se encontrasse com aquela ameaça, você não teria a mínima chance. Fim de jogo. Você não vai estar no próximo filme. Essa criatura era o Xenomorfo mais aterrorizante já criado na história da humanidade, conhecido vulgarmente nas “quebradas” pelo apelido de Alien.

Quase 40 anos depois, temos agora um vislumbre do que era o “filme que deu origem a série”. Estreando na próxima quinta-feira, Alien: Covenant não tem toda essa carga de adrenalina e medo constante de Alien: o Oitavo Passageiro (1979). Em contrapartida, traz uma aceitável correção de caminho para o famigerado “meio-a-meio” Prometheus (2012). Por sinal, essa aparente necessidade de corrigir para se firmar uma franquia parece ser a âncora que impede o filme de evoluir.

Covenant é uma nave com mais de 2 mil passageiros em hibernação profunda, enviados para colonizar um planeta com atmosfera semelhante ao da Terra. Mas um imprevisto faz parte da tripulação acordar da hibernação. Com isso, encontram evidência da existência de humanos em um planeta nunca visto por eles. E sair da missão principal para investigar é apenas o primeiro dos inúmeros clichês do filme. O filme recorre até mesmo nos clichês que a obra original criou. A preocupação é de criar um universo “Alien”. O terror claustrofóbico é negligenciado. O foco em amarrar as pontas soltas deixadas em Prometheus força o diretor Ridley Scott em ficar se explicando em vez de explorar as sensações esperadas.

Esse engajamento impede também que personagens sejam melhores desenvolvidos. Daniels (Katherine Waterston) não consegue ser a protagonista feminina que se tornou assinatura da franquia. Uma tentativa de replay mal sucedido da insuperável Ripley (Sigourney Weaver) que não tem o mesmo carisma e nem a mesma presença. A única real profundidade é resultado da dualidade entre os andróides Walter e David, ambos interpretados perfeitamente por Michael Fassbender. Enquanto o primeiro é programado para agir mais como uma máquina, o segundo tenta se assemelhar cada vez mais aos seus criadores. David já se questiona enquanto indivíduo, e a filosofia aqui está no fato de que o robô sabe que, assim como ele, seus criadores também foram criados. O que compele David de ser também um criador. É o máximo que é possível se aprofundar sem entregar spoilers do filme. Outro resultado triste é que a estrela que dá nome ao filme só aparece de fato no ultimo terço do longa. Dando espaço para os Proto Xenomorfos serem uma ameaça inicialmente maior.

A estética do filme respeita suas origens. O som, por exemplo, traz a mesma linha de assinatura dos seus antecessores. Quem se lembra de Aliens (1986), do silêncio no momento em que a Ripley cai no ninho e fica cara-a-cara com uma Rainha, sabe bem o frio na espinha que essa ausência de som simboliza. Os sons dos aparelhos e dispositivos seguem a mesma lógica. Já os desenhos do “doente” Giger continuam fortes como nunca. Para quem nunca notou, todos os traços do universo Alien são de cunho sexual e que trazem referências a vaginas e pênis.

Alien: Covenant não tem tudo que precisava para ser uma grande obra do gênero. Mas deixa a esperança de que o criador Ridley Scott não se deixe morrer pela sua criação e agora finalmente saiba para que direção caminhar. E apesar de tudo, não tenham dúvidas. O medo e terror, embora mais suave, ainda estão presentes. Alien continua fazendo o frio saltar de dentro da barriga.

Nota: 6,9

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