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Por Fernando Booyou

Apostando nas referências, Jogador Nº 1 de Steven Spielberg se garante como homenagem à cultura pop.

Em um futuro dominado por uma rede social, uma sociedade formada por procrastinadores passa o maior tempo de suas vidas dentro do Oasis, uma rede de imersão total em que é possível você viver qualquer experiência imaginável, desde encontrar alguém em um café, bar, prostíbulo ou até escalar uma montanha com o Batman, servindo de fuga para a monotonia esmagadora da vida. Para fazer parte, você personaliza um avatar (sua imagem dentro da rede), escolhe nome de usuário e investe tempo e dinheiro neste mundo virtual em que pessoas desenvolvem relações sem nunca terem se encontrado ao vivo. E como há diversos universos dentro dessa rede, você torce para não morrer em nenhum deles e perder tudo que conquistou em um acidente ou em um dos inúmeros jogos que existem, sendo que o maior jogo de todos é uma “caça ao tesouro” desenvolvida pelo criador da rede, cujo prêmio é se tornar um dos donos dessa rede e levar muito dinheiro com isso. Uma ficção com leves toques de realidade.

Jogador Nº 1 é uma boa aposta no lugar comum. Roteiro, desenvolvimento, música e referências, mas muitas, muitas referências. É impossível assistir uma vez só e já pegar todos os “easter eggs”, expressão referente à tradicional brincadeira de caçar os “ovos de páscoa” escondidos, que na cultura pop se aplica em achar referências escondidas em uma série, filme, jogo, etc. Inclusive, a tal caça ao tesouro, o principal mote do filme, é uma busca em encontrar os “easter eggs” deixados pelo criador dentro do Oasis. São tantas as referências que o filme se torna uma caçada tanto para os que estão envolvidos, quanto para quem está apenas assistindo. Gigante de Ferro, super heróis, vilões, o DeLorean do De Volta Para o Futuro, personagens de vários games como Warcraft, Overwatch e Doom, a moto do Kaneda em Akira, desenhos animados e animes, Gundam, Mechagodzilla. Seria possível fazer um texto inteiro somente com uma lista. O filme em si já é uma referência aos clássicos como Deu a Louca no Mundo (1963) e Tá Todo Mundo Louco! Uma Corrida por Milhões (2001) em que vários personagens concorrem entre si para encontrar um grande prêmio.

Quem cresceu com as aventuras dirigidas por Steven Spielberg encontra em Jogador Nº 1 uma sessão nostalgia. Atualmente, o diretor intercala em fazer filmes de gêneros variados, como o drama de época The Post, que esteve em cartaz apenas 2 meses atrás e concorreu como Melhor Filme no Oscar. Então, sempre que Spielberg retorna com uma nova aventura é um evento aguardado. Aqui, o diretor entrega exatamente o que o público espera. Uma fantasia sci-fi com bastante ação, diversão e aquela sensação de ter acabado de sair de um grande parque temático. Mas nada que você já não tenha visto. Lembre-se que o filme aposta nisso. Mascarado em forma de homenagens e sob o argumento de ser uma grande referência de gênero, fica um enredo de mais do mesmo. Não foi só o King Kong aparecendo gigante na tela que você já viu. Todo o desenrolar do filme é um remake de tudo que o próprio diretor já fez, como se fizesse uma referência dele mesmo. Ainda assim, não aparecem muitas menções diretas de suas obras, como E.T. ou Tubarão, por exemplo. Spielberg se mantém constante em não arriscar. Seus trabalhos recentes seguem os mesmos formatos, padrões, cadência. Pelo menos o resultado é bom, como já esperado.

A trilha sonora também segue a mesmice. A oportunidade de fazer uma compilação de músicas que seriam marcadas pelo filme, como em Guardiões da Galáxia, fica desperdiçada trazendo clássicos das mais tocadas do verão de 84, sem uma pesquisa muito aprofundada. A preocupação em colocar só referências em todos os níveis cria na trama um lapso de tempo cultural, em que nada de música ou referência pop surgiu entre 2018 e 2045. Por sinal, a referência vintage para os adolescentes do futuro seria, provavelmente, os nossos dias atuais e vindouros. Mas, por algum motivo, eles escutam, conhecem e curtem somente as nossas referências dos anos 80, 90, 2000. Perzival / Wade (Tye Sheridan) o herói garoto pobre que não freqüenta a escola, mas que é craque no Oasis e se destaca como o “Jogador Nº 1” no ranking, tem no mundo virtual de 2045 um DeLorean de 1985. Aech (Lena Waithe), melhor amigo(a) do mundo virtual que nunca se encontraram no mundo real, construiu dentro da rede seu próprio Gigante de Ferro de 1999. Art3mis / Samantha (Olivia Cooke), a rebelde par romântico que enfrenta o sistema, tem a moto do Kaneda da animação Akira de 1988. De 2018 em diante, nada de relevante no mundo aconteceu. Obrigado Facebook, digo, Oasis.

Apesar de arriscar pouco, seja no roteiro, músicas, estética ou nas referências culturais, Jogador Nº 1 se garante como um filme daqueles que você irá assistir várias e várias vezes. Sendo que em cada uma você descobrirá algo novo. Steven Spielberg consegue pegar o espírito Sessão da Tarde, conceito que ele mesmo ajudou a criar, e resumir em uma grande reunião megalomaníaca de personagens que conhecemos e nos apegamos ao longo de nossas vidas. Em vez de álbum de figurinhas da Copa, a vontade é de colecionar um álbum com tudo que aparece de alusão dos desenhos, quadrinhos, animes, mangás, jogos, cinema ao longo do filme. Essa não é sua melhor obra. Mas com certeza será uma das mais assistidas.

Nota 7,5 /10

 

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