por Fernando Booyou

Com saída de del Toro, filme ganha orçamento para efeitos e fica mais claro. Mais claro que vai ser mais uma franquia sub-aproveitada.

Chegamos no futuro em que tudo se resolve com um Mecha (Mechanical, inglês para Robôs Gigantes). Se tem monstros colossais, construímos Mechas. Se monstros deixam de existir, construímos mais Mechas porque todo mundo quer ter um Mecha. E se todo mundo quer um Mecha, criamos um mercado de Mechas, peças de Mechas, drones de Mechas. Porque até para ver o que tem em um lugar que bastava abrir no Google Maps, usamos Mechas. Agora que todo mundo tem Mechas, as coisas fogem de controle, monstros voltam, e os Mechas ganham sentido novamente. E isso já serve de resumo para Círculo de Fogo – A Revolta. Um contexto fácil de se identificar nas questões do cotidiano. Você pode facilmente trocar Mechas por armas, por exemplo. Mas não pense que o filme se propõe a algum tipo de reflexão sobre o assunto. Aqui é só pew-pew! Pow! Kaboom!

Tudo no filme segue caminhos não muito profundos, até um pouco óbvios. Não que o primeiro filme fosse um enredo cheio de reviravoltas ou questões filosóficas. Mas na continuação, isso se extrapola. O enredo segue bastante seus antecessores, no plural, porque foram vários, fazendo uma mistura entre Changeman, Tartarugas Ninjas, Transformers, com um leve toque de academia saga Divergente, colocando adolescentes em posição de destaque para atingir este público, assim como nas referências usadas de animes japonês. Embora o anime Evangelion continue sendo o ideal de filme que nunca será alcançado. Inclusive, no anime se tem a ideia de crianças de 14 anos terem maior facilidade de criar link cerebral com suas máquinas. E só nos detalhes se comparam. A ideia de um enredo denso não foi aproveitada.

Se tornou um filme franquia, feito para vender bonequinhos e monstros. Fica estabelecido os mocinhos com seus Jaegers (Os Mechas do filme) e os vilões alienígenas Precursores com seus Kaijus (Monstros Gigantes). E cada um tem seu nome para ajudar a vender: Gipsy Avenger, que é o novo boneco melhorado do Gipsy Danger (em todos os filmes eles vão apresentar uma versão nova. O próximo terá 3 turbinas), pilotado por Nate Lambert (Scott Eastwood) e Jake Pentecost (John Boyega), filho do herói Pentecost (Idris Elba), mas que se tornou um festeiro piadista e que aceita posteriormente o chamado do herói; Saber Athena, o boneco laranja que é o mais rápido de todos e vem acompanhado de duas espadas que se juntam; Guardian Bravo, o robô vermelho que conta com chicotes elétricos que acendem; Bracer Phoenix, marrom-esverdeado estilo guerra, tanta força bruta que é o único com 3 pilotos, sendo um especializado em mísseis e metralhadoras que parecem canhões. Quanto aos Kaijus, somente um o enredo explora a capacidade de receber ataques e devolver em energia, igual a um dos Anjos de Evangelion. Mas todos recebem nomes para ajudar você a encontrar nas lojas. Se comprar os 3 monstros, você junta e monta um Megazord Kaiju. Pilhas vendidas separadamente.

A saída da direção de Guillermo del Toro, que neste filme assina apenas a produção, e com a entrada de Steven S. DeKnight (diretor de séries como Spartacus e Demolidor), muda-se também a abordagem. Enquanto del Toro se preocupava em dar pinceladas dos conflitos sociais, políticos e internos dos personagens, ao mesmo tempo em que dava vida e história pregressa aos Jaegers, DeKnight se preocupa mais em estabelecer um novo contexto, em que jovens são treinados usando todos clichês já estabelecidos em suas relações, com direito a frases como “você não merece estar aqui” para que em seguida outro personagem possa se provar digno.

O longa negligencia no desenvolvimento dos conflitos, dá pouca relevância para todos personagens anteriores e inclusive não se aprofunda em descrições que dariam mais “personalidade” aos Jaegers. Personagens como Mako Mori (Rinko Kikuchi), soldada que salvou o mundo no anterior e que foi deixada de lado na continuação no papel de uma burocrata, ou Raleigh Becket (Charlie Hunnan), o outro piloto herói que nem ao menos é lembrado, não recebem devida importância. Newton (Charlie Day) e Gottlieb (Burn Gorman), núcleo cômico do anterior por conta de suas esquisitices e excentricidades, são reduzidos a chatices, arrogâncias e planos dignos de um Super Sentai americanizado estilo Power Rangers. Até é possível assistir este filme sem ter visto ao anterior. A introdução, que é bem parecida com o texto do primeiro, já resume tudo que o espectador precisa saber.

O que antes parecia uma receita caseira com ingredientes secretos, agora virou fast food padronizado. Deixou de ter o toque personalizado do diretor (que já nem era muito) para virar produção em série feita pelo estúdio. Mas o que importa para muitos está no filme. Tem vários tipos de robôs gigantes para colecionar, tem muita luta com monstros genéricos, tem plot twist do Transformers com humanos manipulando tecnologia alienígena e terminando mal, tem orçamento maior para ver os robôs lutando de dia. Tem tudo de histórias que você já viu, mas agora com efeitos mais legais. Círculo de Fogo – A Revolta tinha tudo para ser épico, mas se tornou um filme que poderia ser lançado diretamente no Sessão da Tarde.

Nota: 6/10

 

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